Paris me Chama

Moda, Beleza e dicas de Paris

by Paula Saady

Coco Chanel em 5 lições de branding

Coco Chanel em 5 lições de branding

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“ L’acte le plus courageux est toujours de penser par soi-même. A haute voix.” Coco Chanel

No último mês de julho fui ver a apresentação de alta joalheira da Chanel (fotos acima), uma coleção cheia de misticismo intitulada os Talismãs de Chanel, pois quem já teve a oportunidade de saber um pouco mais sobre a vida da Coco Chanel sabe que ela era muito supersticiosa e ligada ao ocultismo. Ela também era uma profissional de branding sem igual, mesmo antes do branding entrar na lista de prioridades no posicionamento das marcas. Tudo dela era conectado, tinha um simbolismo que transmitiam seus valores, sua história. Ela teve atitudes tão modernas para a época que elas continuam atuais até hoje.

A apresentação de jóias aconteceu em uma antiga escola de medicina, onde eles instalaram uma parede de espelhos
A apresentação de jóias aconteceu em uma antiga escola de medicina, onde eles instalaram uma parede de espelhos

1 – Coco Chanel era total girl power. Brincava com a androginia e atitudes masculinas: não se casou, colecionou amantes, teve uma vida social intensa e foi uma verdadeira selfmade woman. Conhece alguém com esse perfil ? Quando encontrou Ernest Beaux, o perfumista que desenvolveu o Chanel N.5, ela disse: “Quero um perfume de mulher com cheiro de mulher”. Não é à toa que esse perfume sexy e poderoso seduziu a diva Marilyn Monroe e continua sendo uma dos mais vendidos do mundo.

2 – Ela dormia em uma suíte no Hotel Ritz, mas possuía um apartamento no segundo andar da loja da Rue Cambon, que ela usava para receber amigos e clientes. Esse apartamento foi todo decorado com elementos que a inspiraram, simbolismos, misticismos, nenhum dos elementos estão lá por acaso. Só de entrar você logo entende o universo de Coco, é uma espécie de moodboard em 3D. Das escadas do Ritz às escadas de espelhos da loja que dão acesso ao apartamento, tudo era perfumado com Chanel N.5. Ninguém tinha essa noção de identidade de marca na época. Minha musa do branding !!!!

No apartamento da Rue Cambom Lustre de metal e cristais, reparem que podemos ver várias formas como o CC e o número 5. Atrás, nada de papel de parede: a paredes eram forradas de juta tingida de dourado

Simetria e austeridade, e olha o espelho veneziano todo trabalhado em cristais.

Vários leões , pela casa, pois ela era leonina de 19 de agosto

Simetria e pureza de formas, sabia que essas caixinhas de metal eram todas de ouro na parte interior ? Elas simbolizavam a visão que Chanel tinha do luxo

Chanel interpretada por Salvador Dali

3 – Chanel mudou a atitude e a maneira de se vestir das mulheres do século 20. Mas ela não fez isso tudo sozinha, ela se aliou e trocou figurinhas com as pessoas mais descoladas da época. Desde a locomotiva social Misia Sert (com quem foi buscar consolo em Veneza para a morte de Boy Capel, seu grande amor, e acabou se interessando pela perfumaria), até artistas de vanguarda como Marcel Duchamp, Salvador Dali, Mondrian, Diaghliev, Jean Cocteau, Igor Stravinsky, Modigliani, Picasso e outros. Ela se influenciou um pouco de cada um deles, traduziu isso para moda e ainda aproveitou divulgar sua marca, patrocinando muitos desse artistas que ela acreditava. Da geometria do cubismo para a embalagem do Chanel N.5, da mulher em linhas puras e minimalistas do trabalho de Modigliani, da poesia de Apollinaire, da dualidade homem-mulher de Duchamp, da ironia de Salvador Dali, e por ai vai… Um mecenato bem escolhido sempre dá um up na imagem de uma marca, até hoje.

4 – Para divulgar o Chanel N.5 na época do seu lançamento, ela não fez uma campanha massiva. Ela apostou em um esquema de petit-comité, apresentando o produto aos poucos e dando de presente para celebridades, mulheres influentes e bonitas da época, ou seja, as trendsetters. A produção ainda era pequena e artesanal e rapidamente todas queriam o perfume que logo virou um objeto de desejo, naturalmente sold out. Nesse momento ela decide assinar um contrato com os empresários Pierre e Paul Wertheimer, proprietários da Maison Bourgeois e funda a Sociedade Chanel de Perfumes, assegurando a produção e distribuição do tão esperado perfume no mundo inteiro, no momento certo. Estratégia de marketing super bem orquestrada.

Coco Chanel imitando a pose de sua musa, Catarina de Médicis

Catherine Deneuve clicada por Richard Avedon para a campanha do perfume em 1972, com pose inspirada em pintura de Brancusi

5 – Ela reinventava sua vida e seu passado com estórias cada vez mais glamourosas, e muitas coisas ela nem explicava, ou mudava de versão, deixando aquele gostinho de mistério. Por exemplo: o nome Chanel No.5 nunca foi esclarecido deixando em aberto diferentes explicações e até hoje ninguém sabe qual é a verdadeira. Seria uma homenagem à sinfonia de Igor Stravinsky “Les Cinq Doigts”, que ele compôs em 1921 (mesmo ano do lançamento do perfume) ? Ou o fato do cinco ser considerado um número perfeito na magia e Chanel ser mística e supersticiosa? Poderia ser o manifesto dadaísta We 5 de 1920? Teorias também não faltam para o logo CC: de sua identificação com Catarina de Médicis, rainha da França entre 1560 e 1564 que também assinava CC e introduziu a arte da perfumaria no pais até as linhas curvas dos vitrais de Aubazine, convento-orfanato onde ela foi criada e aprendeu a costurar. Ela criou um mito sobre ela mesma sem precisar de assessor de imprensa e nem de empresário.

Conclusão: Chanel foi a It Girl de sua época, impôs seu estilo de vestir e de vida, foi invejada e copiada por muitas e ainda soube tirar proveito disso nos negócios. De menina pobre e abandonada virou umas das mulheres mais influentes do século. Arrasou muito ! Mas nem tudo são flores, ou melhor, camélias. Rodeada de elementos de sorte e longevidade, ela viveu e trabalhou até os 87 anos, mas teve um final um tanto solitário, dizem que ela já estava até falando com as estátuas… Seria esse o fim de alguma das personagens de Sex and the City ? Será que com toda essa trajetória de sucesso, bem no fundo ela foi feliz ? Isso a gente nunca vai saber, mas eu acabei o dia pensando em todas essas escolhas da vida que fazem a diferença no final.

Thanks Chanel, por esse presente.

Olha eu no sofá da Chanel, em foto de 2013, quando estive pela primeira vez em visita guiada ao apartamento da Chanel, as almofadas imitando as bolsas 2.55 e os livros herança de seu amor, Boy Chapel, morto prematuramente em 1919

A famosa escadaria de espelhos da loja na Rue Cambon, o jogo de reflexos permitia a Coco de ver a reação das clientes quando as modelos desciam para os desfiles, lá no alto ficava seu apartamento.

3 Comentários
  • Nazare

    Artigo maravilhoso, escrito com muita sensibilidade e desenvoltura nos remete à Paris e seus encantos de outrora.Chanel revolucionou seu tempo e a redatora captou todo o enlevo e o glamour da época mostrando Chanel visionária e sua obra atemporal. Adorei !!!

  • paularitasp

    Artigo maravilhoso, escrito com muita sensibilidade e desenvoltura nos remete à Paris e seus encantos de outrora.Chanel revolucionou seu tempo e a redatora captou todo o enlevo e o glamour da época mostrando Chanel visionária e sua obra atemporal. Adorei !!!

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